top of page

Como Putin poderia avaliar o debate republicano dos EUA

Conflito na Ucrânia foi um dos temas discutidos pelos pré-candidatos na quarta-feira


Se Vladimir Putin assistisse ao debate dos pré-candidatos do Partido Republicano à Presidência dos EUA na noite de quarta-feira (23), teria encontrado mais uma razão para se afundar ainda mais numa longa guerra com a Ucrânia.

Os confrontos retóricos ferozes sobre o conflito desnudaram a divisão crescente no GOP (como o partido é conhecido) entre o slogan “América em primeiro lugar”, de Donald Trump, e o internacionalismo, que foi uma das bandeiras do presidente republicano Ronald Reagan e hoje está cada vez mais apagado.

Os planos ali mostrados podem trazer profundas implicações para o esforço do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky de expulsar as forças russas da Ucrânia, já que os pré-candidatos contestaram a multibilionária ajuda norte-americana.

Se o presidente Joe Biden vencer a reeleição no ano que vem, é improvável que ele abandone a Ucrânia — embora o crescente ceticismo entre os eleitores americanos sobre a generosidade do seu governo possa tornar mais difícil aprovar os enormes pacotes de ajuda no Congresso.

No entanto, se Trump, ou outro republicano com a mesma mentalidade, ganhar a presidência, os EUA poderiam diminuir seu papel de líder do Ocidente como apoiador na luta da Ucrânia pela sobrevivência.

Em conjunto com a ofensiva ucraniana mais lenta do que o esperado, essa visão também poderia mudar a dinâmica geopolítica trazida pela guerra. Ela também poderia aumentar a pressão externa sobre Zelensky e entre os estados europeus vacilantes para um acordo enquanto Biden ainda está na Casa Branca.

Mas os cálculos de Putin podem ser moldados pela possibilidade de um novo presidente dos EUA que não esteja comprometido com a guerra.

Embora Trump não tenha participado do debate em Milwaukee na quarta-feira – ele disse que estava muito à frente nas primárias do partido para a participação valesse o seu tempo – a transformação populista e transacional da política externa que ele desencadeou no partido estava no palco.

O empresário Vivek Ramaswamy atuou como dublê de Trump, demonstrando um profundo ceticismo sobre a guerra entre os eleitores de base do GOP.

“A Ucrânia não é uma prioridade para os Estados Unidos da América”, disse Ramaswamy. “E acho que as mesmas pessoas que nos levaram para a Guerra do Iraque, as mesmas pessoas que nos levaram para a Guerra do Vietnã (…) não dá, não dá para começar outra guerra que não se ganha. Não quero chegar ao ponto de enviar nossos recursos militares para o exterior quando poderíamos usá-los melhor aqui em casa para proteger nossas próprias fronteiras”.

Ramaswamy pode não estar pronto para ganhar a indicação do GOP, mas ele representa uma fraqueza no pensamento dos republicanos – algo que é mais bem simbolizado pelo próprio Trump, que de forma improvável prometeu acabar com a guerra da Rússia na Ucrânia dentro de 24 horas se eleito. A única maneira de fazer isso seria forçar a Ucrânia a capitular totalmente às exigências de Putin.

O problema para a Ucrânia é que os candidatos de 2024 do Partido Republicano que mais apoiam a continuação da ajuda dos EUA – ou seja, opondo-se veementemente às opiniões expressas por Ramaswamy, que também são cada vez mais compartilhadas pela Câmara liderada pelo GOP – têm uma pouca chance de ganhar a indicação.

Chris Christie, ex-governador de Nova Jersey, que recentemente retornou da Ucrânia, alertou: “Este é Vladimir Putin, aquele que Donald Trump chamou de brilhante e um gênio. Se não nos levantarmos contra esse tipo de assassinato autocrático no mundo, seremos os próximos”.

Enquanto isso, a ex-embaixadora dos EUA nas Nações Unidas, Nikki Haley, fez uma defesa apaixonada do apoio à Ucrânia – rejeitando a ideia, que muitos republicanos ecoam agora, de que a guerra é uma distração de um conflito geopolítico mais amplo e mais ameaçador com a China.

“O presidente americano precisa ter clareza moral. Quando vemos a situação com a Rússia e a Ucrânia, vemos um país pró-americanos que foi invadido por um bandido”, disse a ex-governadora da Carolina do Sul. “Assim, se formos falar do que foi dado à Ucrânia, o fato é que menos de 3,5% do nosso orçamento de defesa foi dado à Ucrânia”, acrescentou. (O número de Haley estava ligeiramente abaixo da participação real de 5% do orçamento de defesa dos EUA, constatou a equipe de verificação de fatos da CNN.)

“Uma vitória para a Rússia é uma vitória para a China. Sabemos disso. A Ucrânia é a primeira linha de defesa para nós”, continuou.

Tal como Haley, o ex-vice-presidente Mike Pence pediu apoio contínuo à Ucrânia, expressando sentimentos de um partido que venceu a Guerra Fria, mas agora contém uma facção influente que espelha o apoio de Trump a Putin, um ex-tenente-coronel no KGB.

Pence tentou explicar a Ramaswamy, de 38 anos, a quem ele chamou de “novato”, que os Estados Unidos não podiam dar ao luxo de arriscar o Salão Oval da Casa Branca. “Se dermos a Putin o direito de ele tomar um território, não vai demorar muito até passar por uma fronteira com a Otan. E, francamente, nossos homens e mulheres de nossas forças armadas vão ter que lutar contra ele”, declarou Pence.

O candidato republicano mais perto de Trump na maioria das pesquisas é o governador da Flórida Ron DeSantis, que causou furor no início deste ano ao referir-se à guerra na Ucrânia (precipitada por uma invasão ilegal de um país soberano) como uma disputa territorial. No debate, DeSantis parecia ansioso para obter crédito pelo ceticismo sobre a guerra, ao mesmo tempo em que tentava evitar novas perguntas sobre sua adequação para servir como comandante-chefe da nação.

“Como presidente dos Estados Unidos, sua primeira obrigação é defender nosso país e seu povo”, disse DeSantis. “Ou seja, todo esse dinheiro está sendo enviado, mas não está sendo feito o necessário para proteger nossa própria fronteira”.

DeSantis também disse que exigiria um maior esforço por parte das potências europeias para salvar a Ucrânia. O governador da Flórida acrescentou: “Não vou enviar tropas para a Ucrânia, mas vou enviá-las para a nossa fronteira sul”. O comentário de DeSantis foi ingênuo, porque ninguém – nem sequer os mais fortes apoiadores dos EUA da Ucrânia – defende o envio de tropas dos EUA para a guerra, uma vez que isso iria causar um confronto direto com a Rússia que poderia escalar para uma Terceira Guerra Mundial.

O debate destacou uma das tragédias da guerra pela Ucrânia. Por mais difícil e heroica que seja a luta de seu povo, ele depende dos EUA e dos seus aliados para as armas necessárias para repelir a invasão da Rússia. Os ucranianos não podem controlar o que Putin faz, o que significa que seu destino também será votado nos EUA em 2024.

Link de referência da matéria: https://www.cnnbrasil.com.br

1 visualização

Comments


bottom of page